Era quinta-feira, 6 de março, quando a parede lateral da Escola Municipal Zumbi dos Palmares, no Complexo da Maré, desabou. As chuvas que castigavam o Rio de Janeiro há três dias tinham saturado o solo e comprometido a fundação do bloco mais antigo da escola. Nenhum aluno se feriu — a diretora havia dispensado as turmas mais cedo, ao perceber as rachaduras se alargando.
A prefeitura enviou uma equipe de vistoria na sexta-feira. O laudo técnico foi entregue na segunda-feira seguinte. A previsão de início das obras: "até 90 dias".
A comunidade não esperou.
Dona Benedita, 62 anos, liderança comunitária da Maré há três décadas, fez uma transmissão ao vivo no WhatsApp na sexta-feira à noite. "Quem sabe trabalhar com construção, quem tem ferramenta, quem pode comprar material — aparece amanhã cedo na escola." Em 40 minutos, o vídeo tinha 3.000 visualizações dentro do complexo.
"A prefeitura tem 90 dias. A gente tem 72 horas. Nossas crianças não podem ficar 90 dias sem escola." — Dona Benedita, liderança comunitária da Maré
No sábado às 7h, havia 200 pessoas na frente da escola. Pedreiros, eletricistas, pintores, estudantes de engenharia da UFRJ que moram na Maré. Uma construtora de fora da comunidade doou cimento e tijolos. Um depósito de materiais do bairro abriu crédito sem juros. Uma vaquinha online arrecadou R$ 47.000 em 36 horas.
Na segunda-feira, quando a equipe da prefeitura voltou para "iniciar o processo de licitação", encontrou a parede reconstruída, pintada e com uma placa nova: "Reconstruída pela comunidade da Maré. Março de 2025."
A diretora da escola, professora Rosângela Matos, disse que as aulas foram retomadas na terça-feira. "A escola ficou melhor do que estava antes. Aproveitamos para consertar o banheiro que estava com problema há dois anos."
A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro afirmou, em nota, que "reconhece e valoriza a iniciativa da comunidade" e que "os técnicos avaliarão a qualidade da reconstrução para garantir a segurança dos alunos". Não comentou sobre o prazo de 90 dias.